Um octocopus anônimo

Esta história é sobre a Copa. E o personagem não é Paul, o octopus vidente que acertou todos os palpites que deu, atingiu fama súbita e se tornou o pai Dinah dos mares- uma espécie de Nostradamus abissal alemão.

O caso aqui é sobre um octocopus: eu.

Nasci em 1974, mas a primeira Copa que vivi foi a da Espanha. Tinha oito anos, e esta copa faz parte das memórias mais lindas da minha infância. As ruas do Rio de Janeiro coloridas, bandeiras nas janelas, a vida amarela: o sol. Minha avó generosamente pintando, no tapume de uma obra, o retrato dos quatro jogadores do Brasil que foram capa de revista após os gols marcados contra a Escócia.

Lembro-me de um goleiro de Honduras, que nem sei se de fato existiu, saindo carregado de campo, tamanha sua tristeza pela derrota. Lembro-me de outro, o elástico goleiro de Camarões. Este existia mesmo, pois reapareceu duas Copas depois.

Lembro-me, claro, da desclassificação do Brasil, chamada depois de tragédia de Sarriá. O marido inglês de minha tia insistindo na entrada do Paulo Isidoro como solução para o irreversível – deve ser por isso que eles só ganharam uma Copa até hoje. Logo depois do jogo, uma tristeza palpável. Algum tempo depois, orgulho. Muito tempo depois, uma referência: o futebol-arte.

Depois vi o Brasil ganhar duas Copas. E perder outras cinco. Mas hoje isso não me importa tanto quanto a alegria do jogo. Da seleção nem espero vitórias, quero a generosidade da festa. A Copa é festival, comunhão e espetáculo. É o jogo dos jogos, é jogo dentro do jogo.

A Espanha, que inicia esta história, também a encerra, agora campeã. Minha oitava Copa acena com o belo reencontro entre jogo e festa dentro de campo. Fora dele, paródias na internet, vuvuzelas e um polvo-profeta garantiram a alegria de uma Copa que não poderia terminar melhor: com um beijo campeão de amor.

Que venha pro Brasil.

Alberto Tembo não é o polvo Paul, e por isso suas previsões – via de regra -vão por água abaixo.


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